NELSON RODRIGUES
Guilherme Fiuza autor do Johnny mandou esse email.
Muito Bom!!!
Caros,
Pausa pra um delicioso trecho de Nelson Rodrigues.
abraços,
Guilherme
(…) Ontem, o meu fraterno colega (Otto Lara Rezende) entrevistou uma psicanalista sobre um dos problemas mais agudos do nosso tempo: - a juventude. E aí começa o equívoco. “Do nosso tempo” por que? O jovem sempre foi problemático e, se não é problemático, estejamos certos: - trata-se de um débil mental que deve ser amarrado num pé de mesa. Vamos dar graças a Deus que a nossa juventude tenha um drama, uma angústia, uma tensão dionisíaca ou demoníaca, sei lá.
Mas a psicanalista começa a falar e logo percebemos o seu raro brilho e o seu vasto saber. Por que o jovem está inquieto, tenso, vibrante, explosivo, perplexo e ameaçador? A culpa é da sociedade e da família. Quanto ao próprio jovem, a entrevista não faz uma tênue insinuação ou uma vaga referência. O que importa apenas é a situação social. Como reles coadjuvante, a situação familiar.
E eu então vi subitamente tudo. Imaginei que, diante de uma prova de natação, a psicanalista havia de concluir: - “Quem nada é a piscina e não o nadador”. Minha vontade foi bater o telefone para a TV Globo e dizer: - “Minha senhora, não se esqueça do nadador”. Se vocês admitirem a comparação, eu diria que há, sim, um nadador no problema da juventude. Sim, o que está por trás da família, da sociedade, das gerações é um velho conhecido nosso, ou seja: - o homem.
Os sociólogos do Otto, os psicólogos do Otto, os educadores do Otto, os professores do Otto ainda não chegaram ao ser humano e o ignoram com uma crassa e bovina teimosia. É preciso que alguém lhes escreva uma carta anônima, com o furo sensacional: - “O homem existe! O homem existe!” E vai ser um susto, um pânico, um horror, quando os citados especialistas perceberem que a besta humana está inserida na nossa paisagem. (…)
