Tropa de Elite

“O título Tropa de Elite não se refere à tropa de piratas que habitam Brasília e que dizem nos representar, e sim ao excelente longa-metragem que chega às telas depois de ser assaltado violentamente.

Meu nome não é Johnny, é João Guilherme Estrella. Como personagem real do livro escrito por Guilherme Fiúza e de um longa de mesmo nome, que em breve estará nas telonas, fui convidado pelos editores da revista M… a fazer uma crítica de Tropa de elite, sob a ótica de quem já teve que negociar com os hômis, tanto para não ser preso , quanto para sobreviver depois na prisão.

Três pontos me chamaram a atenção, já que o filme se propõe a retratar a realidade. O primeiro ponto é a forma com que as polícias se relacionam e como a Polícia Militar é achincalhada e esculhambada pelo Bope, sendo tratada como um adolescente rebelde ganhando esporro no meio da rua.

As polícias Civil e Militar estão bem piores do que é exposto pelo filme. Eu, como já tive o privilégio de estar mais de uma vez em contato com a polícia, na situação de quem foi pego negociando drogas e passando a negociar a própria liberdade, não consigo crer que alguém do Bope mande um grupo de PMs no pé de um morro, em meio a um tiroteio, ficar quieto e este grupo obedeça.

Apenas para dar um exemplo: estava eu, seqüestrado pela polícia, com dois quilos de cocaína, cheio de armas e granadas dentro de um carro à paisana, negociando liberdade em um restaurante na orla de Copacabana, quando fomos abordados por outro grupo de policiais, chamado pelo dono do estabelecimento, que achava que iríamos assaltar o local. Resumindo, tive que fingir que era policial para que o mal-entendido fosse resolvido e para que o número de policiais a serem pagos não triplicasse, aumentando em muito o valor do meu resgate e impossibilitando essa negociação.

O segundo ponto que chamou a atenção é a forma impecável com que o Bope é retratado em relação à honestidade, de modo que a corrupção não consiga penetrar em sua tão perfeita organização. Acho bastante difícil e fantasioso um grupo com tanto poder não ter nenhum agente contaminado pelo amor ao dinheiro. Acho que o Bope não é essa santidade toda.

Se as nossas polícias são assim, como no filme, sendo elas especiais ou não, é ilícito e desumano, após render as pessoas, atirar em suas pernas ou sufocá-las até sangrarem, para que delatem seus companheiros. E se essas torturas de fato acontecem, não é nada agradável saber que residências são invadidas e pessoas arrancadas para a “guerra”, mesmo sendo a maioria delas inocente.

O último ponto que me saltou aos olhos é o fato de ser atribuída aos jovens das classes mais favorecidas a responsabilidade pela violência. Assunto bastante polêmico. Na minha opinião, se tirarmos as drogas de circulação, teremos um exército de desassistidos armados até os dentes, precisando de dinheiro. Se olharmos por um outro ângulo, podemos dizer que esses jovens ajudam a cidade a ficar mais calma, uma vez que geram receita para o crime , diminuindo, assim, as ondas de seqüestros e assaltos a bancos e evitando confrontos em áreas urbanas. Se acabarmos com o tráfico, para que servirão as armas que guardam as bocas?

Pelo que sei, a prática do assalto precede à do tráfico. E são as armas as maiores estrelas desse show. Poderíamos pensar em, primeiro, acabar com elas.”

Texto escrito por mim, que foi publicado na Revista M (clique aqui para ler e conhecer a revista).

12 Comentários para “Tropa de Elite”

  1. Giancarlo Rizzi Diz:

    Estrella,

    Primeiramente eu gostaria de parabenizá-lo por este livro fascinante que acabei de ler: Meu nome não é Johnny.
    Tirei a minha conclusão e, achei que não há um jovem que se identifique com você Estrella. Ao menos sonhar em ser ganhador em tudo, até em apostas valendo uma salsicha, enfim. Ou então aventurar-se pela Europa com uma namorada, passeando de trem e usando só do bom! Claro que eu me identifiquei muito com o personagem da história, você. Todo jovem de sentir adrenalina, emoção, aventura e claro, sempre tem aqueles que preferem o gostinho do proibido.
    A obra alerta aos jovens que querem se aventurar pelo tráfico e esclarece que nem tudo é somente diversão e curtição. É o crime afinal, não é o creme.
    Acontece que com essa violência, inclusive mostrada no filme “Tropa de Elite”, inculcamos ao tráfico uma veia forte ao crime. Até mesmo apontando como, às vezes, o cerne de crimes praticados com violência, e da criminalidade no todo. O governo faz campanha dizendo que o usuário alimenta a criminalidade.
    Além dos argumentos acima da crítica que o Estrella fez sobre o filme do BOPE, não podemos esquecer da insinuação que o usuário alimenta o crime. Como fora bem explicitado, na parte que o policial do BOPE quebra na porrada um amigo participando de uma caminhada por JUSTIÇA.
    Discordo totalmente que o usuário alimente o crime, muito menos o traficante. O usuário alimenta a si mesmo. Traficante apenas comercializa, distribui, fornece. Se não seria ele, seria o farmacêutico ou médico, etc. Meu argumento é nada mais do que o livro seu Estrella. É fundamentado na história real.
    O tráfico de Estrella era forte, abastecia o Rio de Janeiro, era barão. E qual foi o dia que Estrella praticou crime violento???
    Essa é a prova, não precisa de mais argumento!
    Estrella, sempre teve família, estudos, lazer e demais necessidades humanas para ser uma pessoa com dignidade. Aquele que está na boca-de-fumo portando fuzil, se quer tem uma família, talvez um filho perdido. Na maioria óbvio. Também há aqueles que não tiveram condições de estudar, sem comida, casa e depois são despejados na prática do crime. De fazer assalto, portar fuzil para segurança da boca, cometer homicídios. Tudo com violência e bastante sangue. São jovens que não tem mais base alguma, desestruturados.
    Estrella, não sei se você concorda com a minha opinião, mas ela sempre foi firme. Seu livro me fez ter mais convicção disso agora.
    Parabéns pela sua volta por cima. Nunca fui preso, mas sou um recém advogado e conheço a podridão do cárcere. Percebo o sofrimento e a enorme quantidade de morto-vivos que habitam nosso sistema prisional.
    Gostaria que você me respondesse debatendo.
    Obrigado e um forte abraço no seu coração.
    Gian

  2. michelle Diz:

    fiquei interessda na fala da juiza, vc tem como me passar?
    abraços

  3. Biottik Diz:

    Não assisti Tropa de Elite, e nem pretendo assistir.
    Fanfarrões do cinema nacional!

  4. André Dib Diz:

    Oi Estrella

    Acabei de assistir a Meu Nome Não é Johnny. Eu gostei, e você? <>

    Sobre o último quesito levantado por você em Tropa de Elite, penso que culpar o playboy pelo tráfico (criminalizar o usuário) é uma hipocrisia típica de quem ganha com o tráfico. Ou ingenuidade de quem não vê o mundo em três dimensões.

    Proibir a maconha e a cocaína só interessa a quem ganha com o tráfico, principalmente políticos e oficiais da lei. Ninguém parou de beber devido à Lei Seca, que só beneficiou os mafiosos dos EUA nos anos 30.

    A culpa da violência no tráfico não é do playboy. É da sociedade brasileira, que não luta pela legalização das drogas.

  5. Érica Diz:

    Me impressionou muito o cartão de Natal enviado que dizia algo como: “O verdadeiro nascimento é aquele em que depositamos um olhar inteligente sobre nós mesmos.”

    Por curiosidade, quando vcs vêm a Brasília?!

  6. Clarice Casalino Diz:

    Oi João,

    Desculpe usar este espaço, mas foi o único jeito que encontrei para entrar em contato com vc. Resolvi pedir ajuda pq descobri que vc e meu irmão têm algo em comum. Vcs dois passaram um tempo no Heitor Carrilho, durante a década de 90, talvez vcs tenham sido até colegas por lá. O problema é que ele não teve a mesma sorte quando foi solto. Hj ele está morto, e eu precisando de ajuda. Ja tem uma galera muito bacana que está me ajudando, estão sendo importantíssimos. Posso te mandar um e-mail explicando td?

  7. Vitor Diz:

    Olá.

    Achei interessante o ponto de vista exposto em relação ao papel do consumidor de drogas na contribuição para com a violência. A visão “por outro ângulo” é extremamente válida na observação de uma das conseqüências da cessação de uma importante fonte de recursos financeiros da criminalidade.

    Concordo que sem o dinheiro do tráfico de drogas a bandidagem continuará, de uma forma ou de outra, agindo.

    Entretanto, pode-se afirmar categoricamente que a posição do filme não é a de despejar toda a responsabilidade sobre os “pobres coitados consumidores” (as aspas aqui não fazem referência à análise do autor deste blog).

    O filme mostra sim uma seqüência de situações conjunturais (quase estruturais) igualmente responsáveis pela perpetuação e pela sustentação da atividade criminosa.

    O fato de que o capitão Nascimento, em meio a um turbilhão de sentimentos, entre eles o de extrema aflição e iminente desequilíbrio, ter dito a um dos consumidores “quem matou ele foi você” ou “você é quem financia essa merda” não pode ser encarado como uma ação excludente de todos os outros fatores da análise conjunta que o filme propicia.

    Era a opinião de um personagem. E não de qualquer personagem. Afinal de contas, não deve ser fácil racionalizar as coisas em meio a situações tão extremas, de modo que uma opinião dessas não pode de certo ser emparelhada com a de um estudioso do assunto.

    O próprio filme é baseado no ponto de vista desse personagem - e também narrador da trama - e muitos dos fatos por ele expostos não são concludentes; esforço esse deixado para aqueles a que o assistem.

    Se prestarmos mais atenção, são apresentados os papéis de alguns outros elementos, entre eles a corrupção policial, na manutenção da criminalidade.

    Por exemplo, e em acordo com o que foi escrito na análise do caro João Estrella, mas que talvez não tenha sido lembrado, o capitão Nascimento ratifica que o papel do BOPE é o de retirar as armas das ruas, mas a própria polícia continua a colocá-las em circulação.

    Em suma, creio que não seja porque o discreto fato de acabarmos com o consumo ilícito de drogas não resolveria um problema complexo que não devamos responsabilizar sim essa parcela pela sua culpa na manutenção e na extensão desse mesmo problema.

    Talvez o “outro ângulo” necessite, em uma analogia mais profunda a termos geométricos, de um ângulo complementar.

  8. Alessandro Buzo Diz:

    Olá,
    Ganhei seu livro ontem de “amigo secreto” entre parentes em casa, já iniciei a leitura, pretendo ver o filme assim que sair no cinema.
    Sou escritor da periferia de SP e meu ultimo livro (tenho 5) saiu com distribuição nacional pela Global Editora, leia…………………..”Guerreira de Alessandro Buzo”.
    A gente se vê,
    Buzo
    www.suburbanoconvicto.blogger.com.br

  9. Carol Diz:

    Olá.
    Assisti a pre-estreia do filme aqui em Brasilia no começo desse mês.
    Fiquei sem palavras. E até chorei. Parecia até que eu era uma mocinha. kakaak Ou então que passei por algo parecido. Mas na verdade não é nenhuma das opções. Eu chorei porque o filme me tocou. Sim. Incrivelmente eu consegui me envolver num drama alheio a esse ponto. Mesmo porque eu não sou nem de longe uma menina sentimentalista e fragil. E a historia da sua vida e a sensibilidade com que foi transmitida e encenada pelo Selton me comoveram. Parabens pela sua recuperação e pela forma como conduz desde então sua vida. Você é a prova de que ainda podemos acreditar e que devemos ser mais humanos.
    Um grande abraço. Desejo sucesso ao filme e que ele produza efeitos.

  10. Fernanda Diz:

    Oi, João
    Acabei de ler o livro há poucos dias. Impressionante, estou prestando vestibular…tenho mil outros livros pra ler, mas esse, em especial, prendeu toda a minha atenção.
    O livro me fez mudar a imagem que eu tinha (e acredito que muito têm) das pessoas envolvidas com o tráfico, ou com o crime em geral
    Todo mundo mereçe uma segunda chance, um voto de confiança
    Parabéns pela coragem de querer e conseguir mudar sua vida, talvez faça muitos jovens não cometerem os mesmo erros

  11. M. Sales Diz:

    Eu não li o livro nem assisti ao filme.
    Mas essa conversa sobre droga está deixando preocupado.
    Será que eu sou o único que ainda acha que droga é uma coisa ruim, que o tráfico gera e favorece a prática de outros crimes e que a Polícia faz parte do lado do bem?
    Eu achava que meus pais iriam achar ruim se eu “cheirasse” as poucas coisas que temos em casa (televisão, computador, aparelho de som…). Eu bebia no passado, mas com toda certeza eu não roubei ou furtei ninguém para tomar umas cervejinhas…
    Eu ainda não tenho filhos, mas acho que não vou destinar parte do orçamento familiar para comprar maconha, cocaína, LSD, haxixe, MdMA e oferecer pros meus filhos de modo que eles não precisem ir às bocas-de-fumo da vida…
    Esse mundo tá moderno demais, meu Deus!

  12. Andre Rocha Diz:

    João,

    Assisti ao filme e achei excelente!
    Tenho preferência por filmes que contam (de certa forma) histórias reais, porém sabemos que sempre há uma pitada de “glamour”, certo exagero ou até alguma (as vezes muita) invenção. No caso de “Meu nome não é Johnny” qual é a sua avaliação neste sentido? “mexeram muito na sua “história”? Notamos que o “personagem” interpretado pelo Selton Mello tinha um senso de humor e tiradas rápidas e mortais, este é você?
    Desde já agradeço e peço desculpas por usar um espaço que não é o ideal.

    Para você, João e os demais leitores e internautas que passarem por aqui deixo outra dica de filme: American Gangster.

    João, parabéns pela redenção!

    Abs.

    André

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